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Alimenta-se no meu prato, bebe da minha água, deita-se na minha cama, mas não dispõe do meu afeto.
Entra sem pedir licença e destrói tudo a seu redor.

Este sou eu, exorcizando demônios e escancarando os olhos. Expulsando o hóspede inconveniente que um dia me fez um reflexo turvo de mim mesmo, e que me colocou nesta posição de réu.
Só que agora, a dor não se esconde mais. Uma vez entubada nos confins desse peito, hoje explode em forma de auto-flagelo, pois não encontra mais espaço para assentar. E a cada digitar deste texto penoso se faz presente em minhas mãos, que há dias procuraram paredes pois sabiam que não obteriam nada além da lembrança do que são feitas: carne, ossos e estupidez.
Passada a fase melodramática, arranco as raízes que me prendem a essa cama e reconheço cada degrau nessa escadaria de erros. Afinal, quem mais poderia fazer isso por mim? Nossas maiores dificuldades são vistas como formigas aos olhos dos outros, mas para nós, são sempre mamutes descontrolados.
Repetindo o que já escrevi antes:

- Somos humanos. E somos feitos deste jeito, de esperança e de dor. De fracasso e vontade de acertar. De uma grande luz e força que de repente despenca numa incompreensível confusão – para de novo tentar se encontrar logo adiante.

Neste momento, procuro esta luz, que vai além dessa tela que me cega os olhos no breu deste quarto apagado.


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Desperto
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Não importa como você olha, a vida é estranha. Pra começar, por que nos impressionamos e ficamos tão obcecados com coisas e feitos de grandes dimensões, quando na verdade são as pequenas coisas que, quando combinadas, tornam tudo possível? Por que tentamos criar nossos próprios mundos para ter a ilusão de que controlamos completamente a nossa existência, quando sabemos muito bem que não controlamos? Por que afirmamos a toda hora que a individualidade é a essência da nossa maneira de ser, e depois aceitamos um grau degradante de conformismo em quase todos os aspectos das nossas vidas? E por que nos preocupamos tanto com as nossas discordâncias, quando de fato são as nossas diferenças que tornam a vida interessante? Talvez a confusão exista porque a vida nem sempre é o que parece. A verdade é que freqüentemente nos concentramos tanto no que estamos fazendo que não vemos para onde estamos indo. O mundo está cheio de distrações, metas e prioridades discutíveis. Tantas vezes começamos sonhando com uma vida maravilhosa, selvagem e livre, que geralmente é muito distante do que acabamos levando. E o triste é que quase sempre descobrimos isso tarde demais, quando é impossível recomeçar. E acredite, existem algumas sensações terríveis neste mundo. Mas, de todas as sensações que deixam você doente, nenhuma é pior do que saber que teve a oportunidade de fazer o que ama de verdade e não aproveitou. Portanto, qual é a sua paixão? A razão por que você veio ao mundo? A resposta a estas perguntas lhe daria a resposta para o grande mistério da vida. E antes que você possa começar a se questionar sobre o assunto, é preciso saber que ninguém fará isto por você. É como andar o tempo todo com um cartaz colado nas costas dizendo 'Me chuta'. Você vai descobrir isso sozinho, e de preferência, com um forte pé na bunda. E é pouco provável que um dia você seja iluminado por uma luz e seu objetivo na vida apareça como numa visão divina. E definitivamente, você nao o encontrará na televisão. Também se trata de chegar à essência do que verdadeiramente importa. Para algumas pessoas isso significará apenas procurar os momentos bonitos e autênticos da vida e construir um plano em torno deles. Para outras, será como olhar para um abismo.
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Temos medo de dormir por conta do que nos assombra. Tal como viver ao lado da constante incerteza de que nunca encontraremos palavras para descrever o que realmente nos destrói.
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(no subject)
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Enquanto passo a noite em claro, sonho acordado com a luta erguida. Não é um sonho bom.
Para cada palavra, temerosamente pensada, um soco no estômago e duas gotas salinas descendo o rosto.
Para cada explicação, confusa, um tapa na cara e o peso da culpa dobrada nos ombros.
E assim, os idiomas se distanciam e minha fluência se esvai.
Pois havia um pesar sincero para cada "drama". Um comentário inocente para cada "ofensa".
E agora, só esta velha cama quebrada, onde coube um mundo entre eu e você.
O pesadelo que caminha entre o insulto e o grito de saudade. Entre o choro perdido na madrugada e o abraço fraterno no fim da tarde.
Até que o fantasma do cansaço nos leve para longe e nos coloque em outro ciclo, igualmente patético, à frente de alguém que nos tire o sono.
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(...)
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O amor, meu amor, é essa esperança ingênua que carrego dentro do peito de que as coisas vão ficar bem, mesmo quando não ficam.
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Refém
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Com um vazio no estômago e olhos perdidos no espaço, o final deste carnaval é regido somente pelo ranger hipnótico do ventilador de teto que ecoa nesse cômodo deserto. Embuçado no silêncio, e o meu ego sem mim. Suspenso.
Depois de algum tempo, talvez eu não seja mais o mesmo. Provavelmente não.
O extremismo cansa. Cansa no amor, cansa na dor.
Talvez eu não tenha mais nada de bom a dizer. Talvez precise entorpecer todas as aflições e fazer com que o peso das coisas diminua, mascarado por esse torpor. Talvez.
Muitos amam beber seus problemas a goles largos, e um copo meio vazio pode te esvaziar por inteiro.
E isso é algo que talvez nunca controlarei. Meus nervos serão a minha morte. Eu sei.
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My Heart Is An Open Book
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A compatibilidade através de um ato, muitas vezes simples e puro, une. Assim começa o prólogo.

Capítulos seguem-se com a embriaguez de um protagonista coração, deslumbrado com afinidades que dançam à sua volta, aparentemente inabaláveis. 
Página por página, as verdades surgem como um exército de coadjuvantes
singulares. Uma diferente da outra, armadas de espadas afiadas.
As afinidades vão caindo uma a uma, diante de nosso infantil e irresponsável protagonista, que agora corre desorientado à procura de sua irmã mais velha, a razão. Esta sempre teve boa memória, e guarda nas lembranças o sofrimento que o coração provoca quando age sem pensar. A salvação é indefinida.

Em um epílogo curto e misterioso, surgem a expectativa e a frustração. Estas andam de mãos dadas, num caminho infinito, onde a primeira grita compreensão e a última, surda, sussurra indiferença.
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Considerações
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Depois de tanto tempo, agora, eu nem mesmo agarro um momento pra escrever estas palavras de forma legível.
Pensar e debater sobre os jogos da vida, a contradição de constatar que nada mais é o mesmo mas que tudo se repete, de uma forma incrivelmente irônica.
De tudo, fica aqui uma linha:
A coisa mais difícil ao se abrir para alguém é botar tanto poder em suas mãos.
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A Lembrança da Ternura
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"Se você tem idéias próprias, mesmo que sejam só umas poucas idéias próprias, tem de compreender que estará sempre encontrando caras feias, gente que faz questão de lhe dar o contra, de diminuí-lo, de “fazer você entender” que não tem nada a dizer. Ou que você deve evitar aquele sujeito porque ele é louco, ou afeminado, ou um verme, um vagabundo, outro porque ele é punheteiro ou voyeur, outro porque é ladrão, outro macumbeiro, espírita, maconheiro, outra porque é canalha, indecente...
Eles reduzem o mundo a umas poucas pessoas híbridas, monótonas, aborrecidas e “perfeitas”. E assim querem transformar você num excluído, num merda. Jogam você de cabeça na seita particular deles para ignorar e suprir todos os outros. E lhe dizem: “A vida é assim, meu senhor, um processo de seleção e descarte. Nós somos donos da verdade, o resto que se foda”. 
E como passam anos martelando isso no seu cérebro, quando você está isolado se acha o máximo e se empobrece muito, porque perde uma coisa bonita da vida, que é desfrutar a diversidade, aceitar que nem todos somos iguais e que se assim fosse seria muito chato." - Pedro Juan Gutiérrez

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Tirano
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Durmo com o peso de um trânsito congestionado, de um pescoço dolorido por má acomodação.
As tantas horas da rotina que sentam-se a meu lado, num ônibus lotado, parecem querer me lembrar de toda uma vida.
Fecho e abro os olhos por diversas e vagarosas vezes. Estou parado no mesmo lugar.
Esta é a sequência hipnótica que me leva até em casa todos os dias.
Num mar de cansaço, sou qualquer contradição entre o descontentamento e a esperança.

Reflito com Guimarães Rosa:

"O fato se dissolve. As lembranças são outras distâncias. Eram coisas que paravam já, à beira de um grande sono.
A gente cresce sempre, sem saber para onde. O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.
"
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